terça-feira, 9 de setembro de 2014

BAR DO SEU FERNANDO

Semana passada fui fazer uma visita ao meu amigo Paulinho, do Bar da Portuguesa. O bar fica em Ramos divisa com Olaria, local bem bacana e na minha opinião é um dos melhores da cidade. Como estava com tempo, resolvi sair mais cedo de casa para dar uma volta pelas ruas do bairro. Peguei o trem na Central, sentido Gramacho, e em quinze minutos já descia na estação de Olaria. O dia estava perfeito para passear. Escolhi uma rua, entrei nela e fui andando devagar, chutando folhas no chão, com as mãos pra trás e assobiando Pixinguinha. Observava detalhes das belas casas e olhava a criançada brincando na rua. Alguns bares começaram a aparecer e decidi que poderia beber uma ampola antes de chegar na Portuguesa. Então comecei, sem pressa, a caçar um que fosse de meu gosto.


O bar

Bastaram dez minutinhos para que avistasse o que procurava, e antes de entrar ainda fiquei um pouco do outro lado da rua apreciando o local. Quando entrei fui atendido pelo João, gente fina, e pedi minha Brahminha. Estava no grau, de doer os dentes. O bar não tem nada de especial para comer, mas alguns bolinhos bacanas estavam no balcão, o tradicional ovo amarelo, amendoim, pele e até salsicha Viena da lata. E pelo que pude perceber, a falta de um menu rebuscado não espanta a freguesia do boteco. O botequim fica numa esquina bacana, Felisberto com Custódio, e gente que trabalha por ali mais alguns moradores de casas vizinhas - estes são maioria, diga-se de passagem - são os que descansam os cotovelos no balcão ou nas tradicionais mesinhas com tampo de mármore e pés de madeira. Casa antiga, tradicional, daquelas que falamos que parou no tempo mas que tem enorme importância nos dias de hoje. O nome do boteco é Bar Polveirinha, mas todos chamam de Bar do Seu Fernando, avô de João que fundou o local há mais de quarenta anos e que já morreu. Dona Marina, uma senhora bem simpática, é viúva de Seu Fernando e ainda trabalha ali.


Carta de drinques

Balcão lateral

Balcão frontal


Dona Marina na labuta


Não demorou muito tempo para começar a bater um papo com alguém, é assim que a banda toca num recinto de respeito como o que estava. Confidências são ditas ao que está ao seu lado mesmo sem nunca ter visto o sujeito, como se ele fosse amigo longa data. Conversei com um senhor de bigode, não lembro qual era sua graça, que estava primeiramente no balcão e depois foi para a mesa ao meu lado. É freguês da casa, mora ali ao perto. Fumava Derby com piteira, usava um relógio antigo e admirava a rua com esgar de felicidade. Gente boa. Num dos papos, em que um caboclo que acabara de chegar de bicicleta também participou, falou-se de um mistério. O da bicicleta, que também era da área, disse que seu enteado havia falecido há três anos e tinha sido enterrado de bermuda e com a camisa do Flamengo. Há alguns meses atrás precisou ser exumado e lá foi ele para acompanhar o ato. O homem afirmou, para surpresa geral, que a bermuda já havia desaparecido mas a camisa do Mengão estava lá, intacta, sem nenhum furinho e ainda com cores altivas protegendo o esqueleto do garoto. Houve um instante de silêncio que logo em seguida foi quebrado com gritos: "Mengão é foda"; "Manto sagrado é isso", e outros dizendo que era uma tremenda conversa fiada. Foi um longo debate.


Freguesia da casa

O bar


E assim o tempo passava, quando vi já estava duas horas lá dentro. Olhei pro passarinho na gaiola e o pobre já estava morto de sono. Várias outras prosas vieram e mais gente dava pitaco. Depois da saideira paguei, agradeci a todos pela acolhida e bati perna pra Portuguesa. Foi uma grande descoberta, voltarei em breve.

Até. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

GENARO, O TRIPEIRO

Como sabem a Tijuca é um bairro que preza pela tradição e o comércio local é um bom exemplo disso. Passeando pelas ruas tijucanas, sim, na Tijuca se passeia, tenho a sensação de que ainda não estou em 2014, época de tanta parafernalha tecnológica. Alfaiates, antigas lojas de roupas, armarinhos, vassoureiro, barbearias, óticas, loja de doces, são tipos de comércio que estão há décadas no mesmo lugar e moldam a Tijuca que resiste e freia o tempo.

Hoje pela manhã fui ao Largo da Segunda-Feira e bati um papo rápido com um destes comerciantes que fazem o bairro ser singular. Falo do Seu Genaro, o tripeiro, onde aproveitei e comprei o fígado fresco que estava querendo.

Segue o bate-papo:

Torreira: Há quanto tempo o senhor está aqui na esquina da rua Aguiar com Conde de Bonfim?
Seu Genaro : Há mais de vinte anos.

Torreira: O senhor é o último tripeiro da Tijuca?
Seu Genaro: A Tijuca é grande, mas pelo menos mais um eu sei que tem. Ele fica lá na Carmela Dutra, ali perto da "Mesbla".

Torreira: O que o senhor tem pra vender?
Seu Genaro: Hoje eu tenho fígado, rabada, língua, bucho, rim, linguiça e bofe.

Torreira: E essa tradicional bicicleta com a caçamba?
Seu Genaro: A caçamba é antiga, a bicicleta nem tanto. Antiga mesmo é minha licença de tripeiro, tem sessenta anos.

Torreira: O senhor fica aqui o dia inteiro?
Seu Genaro: Fico pela manhã, minha mercadoria é fresca e por isso vou embora por volta das 13 horas.

Torreira: E como é sua freguesia?
Seu Genaro: A maioria mora por aqui e compra há anos, gente fiel que prefere comprar comigo do que em mercados grandes. Tem gente que não mora por aqui, mas trabalha, que compra também.

Torreira: Pensa em largar o ramo por se tratar de um comércio antiquado?
Seu Genaro: Não. Como lhe falei tenho meus fregueses aqui e me sinto bem no bairro. Esta é uma boa esquina.


Seu Genaro e seu comércio

Detalhe na mercadoria


Está aí mais uma prova da simplicidade de um bairro que vive o presente com os pés na tradição. Nada enfraquece seu cotidiano e quem vive aqui não quer sair. Salve a Tijuca.

Até.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

CHOPERIA TITO

Neste último sábado finalmente conheci a Choperia Tito, em Ponta Grossa, Paraná. Meu amigo Eduardo Goldenberg vivia me falando que precisava beber o que ele acha o melhor chope do Brasil e incluso já escreveu sobre isso aqui. Uma "comitiva" saiu do Rio de Janeiro e se somou com amigos de Curitiba para beber no local e viver um dia emocionante e histórico. Vejam mais detalhes de como tudo ocorreu no texto de hoje do Buteco do Edu aqui. Falarei nestas humildes linhas sobre o bar, que realmente é uma coisa fina, muito fina.

Às 08h50m da manhã já estávamos na porta. Ao perceberem o barulho do lado de fora, os irmãos Hudson Wiecheteck e Anderson Wiecheteck, que já estavam avisados que teriam visita de longe, abriram o local. Entrei, os cumprimentei, dei a primeira olhada rápida na decoração nostálgica da choperia [sou um nostálgico], mas na verdade queria logo beber o líquido sagrado. Estava um pouco afoito, era muita coisa boa pra se viver naquele dia. O Anderson foi pra dentro do balcão, pegou as belas e antigas tulipas de cristal, se posicionou diante da chopeira de 1.956, que somente ele comanda, e começou tirar. Era o primeiro chope do dia, às nove em ponto. Fiquei olhando com atenção e percebi que o modo diferente em que tira o chope - muito paciente, realmente um artista na torneira - e a pressão da chopeira resultam numa linda e firme espuma. Fica impressionante de se ver. Depois de brindar com os amigos apreciei com calma a bebida e gostei muito. Fiquei com medo da temperatura não estar boa pois a tirada é um pouco mais longa do que o comum, mas nada disso. Chope gelado! Achei que a tulipa ajudou a melhorar mais ainda o estupendo chope. Depois de entrar em velocidade cruzeiro e beber vários, posso afirmar que está entre os melhores que já bebi, sem dúvidas.

Anderson no comando e o grandioso chope .


A Choperia Tito foi fundada em 1.933 pelo alemão Germano Betz e na época tinha o nome de Bar Deliciosa. Em 1.942 o Seu Tito começou a trabalhar no local  como garçom e dois anos depois comprou o negócio, que ficava na avenida Vicente Machado. Em 1.956 o bar mudou de endereço para a avenida Coronel Dulcídio. Hoje quem comanda o pedaço são os netos dele, Hudson e o Anderson. Seu Tito, que completa noventa anos no próximo 3 de março, segue firme e forte e bate o ponto quase todos os dias. No sábado ele estava lá, ajudando dentro do balcão e contanto curiosidades do bar para nós, sempre muito simpático e disposto. A pequena choperia, que na verdade é um magnífico botequim, tem um lindo balcão de fórmica nas cores vermelho e azul original dos anos cinquenta. Placas antigas de bebidas estão espalhadas pela casa, engradados de cerveja bem antigos, de madeira, uma chopeira de madeira com bomba manual, um lindo espelho da tradicional e finada Fábrica de Chapéus Cury, de Campinas, um cuco, igual ao que tenho em casa, ainda trabalhando, um termômetro de uma ótica antiga e mais uma infinidade de coisas que dão uma cara singular ao lugar. Detalhe, nada foi comprado para servir de enfeite, o bar simplesmente é assim desde os anos trinta, tudo original, quase sem alterações.

Parte das raridades.

Prateleira.

Caixa. [Foto: Gus Moraes Rego]


Seu Tito na labuta.


Bebidas quentes também podem ser apreciadas na casa e algumas são raras. Mas nem todas estão à venda e muitas ainda descansam fechadas. O Hudson me contou que tempos atrás encontrou várias garrafas lacradas enroladas em jornais dos anos cinqüenta que o seu Tito havia comprado. Foi uma surpresa e elas agora fazem parte da história da Choperia. O Gus, um amigo da comitiva, bebeu uma dose de Velho Barreiro "safra" 1.978. Eu estive com um exemplar de Dreher ano 1.962 e uma garrafa de 51 com rótulo bem antigo na mão. Para beliscar a casa tem bolinhos de carne, rollmops, empadas, azeitonas, porção de queijo, de lombinho, amendoim...


Preciosidades quentes. [Foto: Anderson Wiecheteck]

Velho Barreiro de 78.  [Foto: Gus Moraes Rego]


A Choperia Tito mistura história, tradição, cordialidade e qualidade, por isso é mais do que especial. Notem que faço afirmações que parecem de um veterano no balcão do bar, mas foi apenas minha primeira ida. E que ida! Fiquei até fechar e saí satisfeito como uma criança ao sair do Tivoli Park depois de ir à todos os brinquedos duas vezes. Para terminar, já ia esquecendo de dizer, o Hudson é fã do grande pianista Jerry Lee Lewis. Por causa disso, bebemos ouvindo Jerry, B.B. King, John Lee Hooker, Freedie King, Elvis e vários outros nomes do blues e rockabilly. 

É, a Choperia Tito é isso tudo mesmo. Voltarei o mais rápido possível.

Até.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

BAR DO JOEL

O nome do bar é Guanabara, não confundam com o Super Guanabara da Conde de Bonfim, mas todos conhecem como bar do Joel. Joel, que conheço há uns dez anos, era gerente do galeto Columbia da Haddock Lobo e há uns dois anos comprou este boteco que fica na Praça Afonso Pena, na Tijuca, bem ao lado do Figueiredo, o Rei da Chinelas (veja aqui). Ele trabalha mais na parte na manhã, e à noite quem costuma comandar o local é seu sócio, o Sr. Maurício. É um pé-sujo tipicamente tijucano, pequeno e aconchegante. Tem um balcão que acomoda uns cinco cotovelos e uma calçada que acolhe algumas mesas. Os fregueses são do bairro, em sua maioria de cabelos brancos, e quase todos se conhecem. Os mais antigos têm lugar cativo, como o Sr. Julio, que fica no fundo perto do freezer e o Beto, que sempre fica em pé na porta, na ponta do balcão. O bom ambiente que tem o boteco, junto com as boas bebidas e os excelentes petiscos fazem com que ele fique cheio quase o dia inteiro.

Bar cheio.

Senhor se refrescando.

Sr. Julio.

Mais um senhor desfrutando do balcão.

Patota na calçada.


Tem um senhor de barriga invejável que vai lá todos os dias, me foge o nome dele agora. Ele só bebe Teacher's, umas três ou quatro doses por vez, e depois vai para um subsolo ali ao lado apostar nos cavalos. Além da cerveja que vem trincando, as batidas de limão e gengibre são muito apreciadas. Apesar de ser acanhado, o botequim também tem uma considerável quantidade de cachaças artesanais, além dos vinhos de garrafão.

Os petiscos da casa são covardia, autênticas iguarias de bar decente. A sambiquira, ou sobrecu de galinha, é sempre disputada. Sai todos os dias na parte da tarde e o tabuleiro fica pouco tempo na estufa. O pernil banhado no saboroso molho da casa sai de manhã, e também não tem sossego. Muitos fazem compras no Pão de Açúcar antes do almoço e atracam lá para beber e bicar um pernilzinho. Ocorre o mesmo com a carne assada na farinha. O jiló no alho é o preferido do Joel, que sabe que o sabor do acepipe é magnífico. Ainda tem uma barriga de porco no vinho tinto, que tive o prazer de comer, mas não é toda hora que ela dá o ar da graça. É feita na casa e temperada por um freguês apaixonado por porco, o Antônio, que está sempre lá. E para quem precisa curar qualquer doença, é só pedir o saboroso mocotó na tigela.


Joel e seu jiló.

Cerva da casa.

Pernil.

Pernil sendo devorado.

Barriga de porco no vinho.

Bar do Joel.


O Bar do Joel e as pessoas que o frequentam são mais uma prova de que a Tijuca é um bairro clássico da boemia e resiste à badalações e modas gastronômicas. Isto orgulha o bairro. Vida longa!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

CANTINHO DO CÉU

Em algum domingo do último mês de dezembro, logo após chegar em casa da pelada dominical, senti uma sede aguda, daquelas de deixar a goela bem seca. Era sede de cerveja. Fui pensando qual seria o bar da vez, a Tijuca é um local privilegiado nisso, e para quem é fã de um belo balcão o bairro é o paraíso. Estava me dirigindo ao Columbinha mas sem querer dei um olhadela para o lado esquerdo e vi o aconchegante e pequeno Cantinho no Céu, portentoso boteco tijucano que não pisava há tempos. Cruzei a Haddock Lobo e em questão de segundos já estava acomodado numa mesinha de canto, que por sorte é minha predileta. Puxei uma ampola. Ao meu lado um coroa com boné do Flamengo conferia o resultado dos cavalos falando com entusiasmo que apostara no Zatopek, na outras haviam experientes locais que tagarelavam sobre probabilidades de resultados do campeonato nacional de futebol, que estava nas últimas rodadas. Depois dessa analisada no ambiente, examinei rapidamente o quadro com os pratos do dia e depois o que tinha na estufa. Decidi rapidamente por uma bela carne assada com legumes cozidos. A comida simples de botequim é o carro chefe da casa, sempre bem feita e com porções honestíssimas. Os beliesquetes são caprichados também, como as orelhas de porco, que adoro. Pra quem é da casa está liberado ir ao mercado ao lado, caso queira, comprar algo para alegrar o estômago (azeitonas, por exemplo) e consumir no bar. Coisas do bairro. Veio minha refeição, que estava com boa pinta, e para ficar mais bonito pedi a pimenta da casa e um pouco de farofa.




Logo em seguida, apareceu um senhor bem vestido, calça e sapatos sociais, blazer, camisa do Vasco e vários elásticos no pulso direito. Se aproximou e com educação pediu dinheiro para comida. Disse para que sentasse e lhe perguntei o nome. Era Jorge. Aproveitei o momento e perguntei também se ele se importava em almoçar ali comigo. Em poucos instantes comíamos juntos, ele quis carne assada com macarrão. Papeamos, o senhor sabia das coisas, e ele me falou que morava nas esquinas, mas tinha uma uma preferida, a da Afonso Pena com Martins Pena, perto de uma padaria que tem ali. Disse também que ficara surpreso com meu convite pois ela era negro e morador de rua. Conversamos sobre samba, futebol, mulher e outras coisas mais. O Jorge é salgueirense, vascaíno e compositor, cantarolou duas de suas autorias, "Um amor de Jacarepaguá" e "Sina". Me deu uma zombada dizendo que era America também, pois segundo ele todo tijucano é America. Mostrei minha insatisfação, de leve, com tal argumento. Fiquei impressionado com seu amor pela Tijuca, disse-me que gosta de tudo que diz respeito ao bairro. Assim que acabou de comer pediu licença para ir. Lhe ofereci um trocado mas recusou, falou que preferia levar uma garrafa d'água sem gás. Dei-lhe o jornal também, pois queria ler as notícias. Atravessou a rua com aparência de satisfeito e foi embora. Pedi mais duas, vieram mofadas, os coroas da mesa ao lado já tentavam lembrar letra de samba batucando nas mesas, uma senhora passou com o carrinho de feira cheio de compras e o porteiro do prédio ao lado palitava os dentes. Paguei, subi  a ladeira e fui descansar. Salve a Tijuca e o Cantinho do Céu.

Abaixo alguns momentos de nosso papo:







Até.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ENTREVISTA: EZIO, DO BAR BRASIL

Sábado cheguei cedo ao Bar Brasil, por volta das onze horas. Ainda não havia nenhum freguês na casa e os garçons terminavam de arrumar as mesas. Fazia um calor do cão. Falei com todos, sentei e pedi um chope, ou melhor, o chope.

Frequento o Alemão da Lapa desde garoto por causa da minha família. Meu falecido pai e meus tios espanhóis iam todas as quartas-feiras lá para beber, fumar charuto e conversar. Tenho várias passagens daquela época na memória e as pretendo contar aqui em momento oportuno. Sábado fui para bater um papo com o lendário Ezio, garçom do Bar Brasil que infelizmente, para nós, vai se aposentar. Soube disso no finalzinho de dezembro quando passei por lá com amigos e falei com ele. A notícia tem pego as pessoas de surpresa, mas não há o que fazer, assim é a vida.

Ele, com a classe de sempre, trouxe-me outro chope e sentou-se ao meu lado para iniciarmos a conversa:




Torreira: Bom dia, meu caro Ézio. Qual o nome completo do senhor e onde nasceu?
Ezio: Meu nome é Ezio Bessa Lima e nasci na cidade de Itaperuna, estado do Rio de Janeiro.

Torreira: O senhor mora em qual bairro?
Ezio: Moro em Nilópolis.

Torreira: Torce para qual time?
Ezio: Sou vascaíno.






Torreira: Quantos anos de Bar Brasil o senhor tem?
Ezio: Dia 1º de Setembro de 2013 eu fiz cinquenta anos de casa. Seguidos, sem ter saído por algum período para outro lugar.

Torreira: Como veio trabalhar no Bar Brasil? Como isso aconteceu?
Ezio: Tudo começou quando minha mãe ficou viúva. Somos cinco irmãos na família, sendo uma menina. Então ela teve que trabalhar em casa de família. Ela trabalhava para uma senhora austríaca lá no Clube Alemão, no Rio Comprido, em cima do túnel rebouças. Um dia ela comentou com esta senhora sobre a dificuldade que estávamos passando em casa, e então sua patroa disse que iria falar com um amigo para me arrumar um emprego. No dia 31 de agosto de 1.963 pela manhã ela me trouxe ao Bar Brasil e me apresentou ao dono na época, o Maier, um austríaco. Conversei com ele e no dia seguinte comecei a trabalhar. Estou aqui até hoje.

Torreira: Falemos um pouco do Bar Brasil. Os bares da Lapa se modernizaram bastante nesses últimos anos. Existem agora vários bares de filial, chiques, descolados... O senhor acha que isso vem prejudicando o movimento da casa?
Ezio: De maneira alguma. A tradição aqui fala mais alto, graças a Deus nossa freguesia segue firme e forte.

Torreira: Eu sei que a freguesia fiel das antigas sempre frequenta a casa. Existem fregueses novos se tornando fiéis também? 
Ezio: Sim. Muita gente nova passou a colocar a casa em seu cotidiano e vem toda a semana.

Torreira: Então podemos dizer que o Bar Brasil tem muita estrada pela frente ainda?
Ezio: Não tenho dúvidas.

Torreira: Quando o senhor está de folga, tem algum local preferido para beber sua cerveja? Ou o senhor não bebe?
Ezio: Eu bebia muito, era muito farrista, gostava muito de noitada... Mas hoje eu estou na igreja e não bebo mais. Estou bem assim.

Torreira: O senhor me disse que se aposentará em fevereiro. O que pretendes fazer quando isso acontecer?
Ezio: Eu vou pra roça. Eu tenho um sítio perto de Itaperuna e Santo Antônio de Pádua. Meu pai gostava da roça e por isso eu gosto também. Vou descansar por lá.




Torreira: E de vez em quando virás visitar o Bar Brasil?
Ezio: Vou sim. Meus amigos e clientes aqui são muitos. O pessoal tem pedido para eu não parar, dizem que estou novo, que posso esperar um pouco mais... Mas acontece que eu estou me sentindo cansado, não do trabalho, mas sim da obrigação diária de ter que levantar cedo, encarar ida e volta na condução... Mas sou feliz com meus patrões aqui, meus colegas de trabalho. Na realidade, quando estou voltando pra casa de metrô e começo a pensar que está chegando a hora de me despedir do pessoal aqui, minhas lágrimas começam a descer. Isso aqui é minha vida, tudo o que consegui foi este lugar que me deu.

Torreira: Seu Ezio, muito obrigado por bater esse papo comigo, foi um prazer. Virei ao Bar Brasil mais vezes até fevereiro para aproveitar sua presença na casa. Um grande abraço!
Ezio: O prazer foi todo meu. Conheço toda sua família e é sempre bom quando vocês estão por aqui. Fale para os seu tios Celestino e Benjamin aparecerem. Vou lá pegar mais um chope pra você.

Ezio, os fregueses do Bar Brasil sentirão muito a sua falta, o senhor é um dos melhores garçons do Rio de Janeiro, uma pessoal muito especial para vários bebedores de chope e amantes da tradição carioca. Espero que sejas muito feliz lá na sua roça e sempre que puder apareça para que possamos matar a saudade. Grande Abraço!

Até.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

C. B. ESTUDANTIL, O VALENTE TIJUCANO

Falando mais uma vez de bares, o grande propósito deste espaço, venho hoje escrever-lhes sobre o Café e Bar Estudantil, valente boteco tijucano. Digo valente porque este pé-sujo, também conhecido como Bar do Xoxó, resiste bravamente aos riscos diários de sucumbir à modernidade. Isso deve-se muito ao dono da birosca, mas principalmente aos fregueses, que são fiéis. Conheço quase todos, são figuraças. Temos o Benito de Paula preto, a Sem Família, o André, o Jorge, o Pica-Pau [que anda sumido], o velho do tique nervoso, o gordo da rádio Manchete, o Gattito, a mulher do cachorro, o bigode da loja de tintas... 

A primeira história que vou contar do local é um mistério. O bar é apertado, cotovelos batalham bravamente por um espaço no balcão, e para entreter o pessoal tem uma tv de quatorze polegadas que funciona na base do bombril. Pensando em melhorar o serviço, o Xoxó comprou [ou alugou, não sei] a loja colada ao bar, que era uma farmácia, e ampliou o local. Colocou mesas bacanas de madeira, fez uma pintura legal e comprou uma televisão dessas grandes e finas. Mas para assombro geral, o novo espaço fica praticamente vazio, os fregueses acharam limpinho demais, não sentiram-se à vontade e preferem o balcão velho e a tv com bombril. Coisas de um bairro chamado Tijuca.

...

Presenciei dia desses por lá algo que teve o Jorge como protagonista. Era uma noite de domingo, coisa das vinte horas, e tinham uns cinco coroas reunidos na porta do boteco, todos da área, completamente mamados. O Jorge, que já tinha passado ali para bater o ponto, teve que ir ao mercado e na volta iria passar novamente pelo Estudantil antes de entrar em casa, era caminho. Pois bem, quando ele aparece na esquina, com umas quatro sacolas, o pessoal começou a gritar:


- Senta aqui pra saideira! 


- O que compraste no mercado?!


O Jorge não precisou de insistência e sentou para beber mais uma. Todos já estavam com a pança cheia de churrasquinho do Gattito. De cerveja nem se fala. Até que um malandro puxa um pote que estava em uma das sacolas do Jorge e urra da calçada: 


- SORVETE!!! Vamos abrir! É passas ao rum, porra! 


E o Jorge: 

- Minha mulher pediu pra comprar, aí é avacalhação!

Mas os outros da turma queriam também: 

- Ah, deixa a gente abrir, cacete, precisamos de sobremesa. Fala pra tua senhora que não tinha. 

O Jorge, grande torcedor do Botafogo, cedeu facilmente, tudo pela amizade:

- Vamos comer essa bagaça, então, mas eu me sirvo primeiro. 
- Ô Zé, traga colheres para estes homens! 

E o pote de dois litros esvaziou-se em questão de minutos. Sabe-se lá o que ele falou ao chegar em casa.

...


Há uns dois anos estava eu fazendo um tour etílico pelo bairro com o meu mano de São Paulo, o Fernando Szegeri, o mano carioca, o Edu, e acho que o japonês Craudio estava nessa também. Andamos por uns cinco botecos, fechando todos, mas queríamos a saideira. Não lembro que horas eram, mas já era bem tarde, alta madrugada. Quando chegamos defronte ao Estudantil, era o último botequim a ser conquistado, as portas encontravam-se arriadas. Por um instante bateu-nos a melancolia. Mas ao olharmos com atenção vimos as luzes acesas do lado de dentro, ou seja, tinha gente. Batemos na porta e ao mesmo tempo colocamos um mico [ou vinte mangos] pela fresta pedindo cerveja. Me identifiquei, então o rapaz [acho que era o Baixinho] abriu, nos olhou com esgar sorridente e disse que já estavam saindo e portanto não poderiam esperar que acabássemos a cerveja. Mas ao mesmo tempo [veja como este bar acolhe seus fiéis] disse-nos que nos venderia cinco ampolas e após terminarmos poderíamos deixá-las, junto com os copos americanos, no canteiro da árvore que fica logo em frente ao lugar. Agradecemos ao pobre homem, que estava morto após extenuante jornada laboral, quase de joelhos, como se ele fosse um rei.





...


O Café e Bar Estudantil e eu vivemos inúmeras vezes lado a lado. Numa delas, com meu irmãozinho Arthur Tirone, o Favela, fechamos uma pá de botecos [um deles o antigo Columbinha, dia em que ele conheceu o Berinjela, ícone tijucano] e por último ancoramos lá. Pedimos cerveja, mas em pouco tempo a fome negra da madrugada bateu à porta do nosso estômago. No canto da estufa, um pedaço de costela desamparado comoveu-nos. Mandamos pra dentro, delícia. Noutra vez, voltando de São Januário com o Tito após vermos o Palmeiras e ele levar uma cacetada do guarda ainda na arquibancada, bebemos umas por ali, foi memorável também. Com meu irmão de sangue, o André, que mora ao lado, foram várias ocasiões. Em uma delas presenciamos um senhor e sua viola, que deu seu show ali no balcão para nós, para um cabeça branca que sempre está bebendo sua lata de faixa azul (saudade) e para anônimos que ali estavam ou passavam pela calçada. Coisas que ficam marcadas. Por essas e outras é que afirmo que a valentia do Café e Bar Estudantil é comovente, constrói passagens bonitas na memória da gente que jamais serão esquecidas. Quando você percebe, o tempo é ligeiro, o boteco já faz parte do seu cotidiano, da sua família, de você. Torço muito para que o C. B. ESTUDANTIL seja um parceiro de longa data.



Favela no balcão



A costela que comemos


Noite com meu irmão André

Até.