terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ENTREVISTA: EZIO, DO BAR BRASIL

Sábado cheguei cedo ao Bar Brasil, por volta das onze horas. Ainda não havia nenhum freguês na casa e os garçons terminavam de arrumar as mesas. Fazia um calor do cão. Falei com todos, sentei e pedi um chope, ou melhor, o chope.

Frequento o Alemão da Lapa desde garoto por causa da minha família. Meu falecido pai e meus tios espanhóis iam todas as quartas-feiras lá para beber, fumar charuto e conversar. Tenho várias passagens daquela época na memória e as pretendo contar aqui em momento oportuno. Sábado fui para bater um papo com o lendário Ezio, garçom do Bar Brasil que infelizmente, para nós, vai se aposentar. Soube disso no finalzinho de dezembro quando passei por lá com amigos e falei com ele. A notícia tem pego as pessoas de surpresa, mas não há o que fazer, assim é a vida.

Ele, com a classe de sempre, trouxe-me outro chope e sentou-se ao meu lado para iniciarmos a conversa:




Torreira: Bom dia, meu caro Ézio. Qual o nome completo do senhor e onde nasceu?
Ezio: Meu nome é Ezio Bessa Lima e nasci na cidade de Itaperuna, estado do Rio de Janeiro.

Torreira: O senhor mora em qual bairro?
Ezio: Moro em Nilópolis.

Torreira: Torce para qual time?
Ezio: Sou vascaíno.






Torreira: Quantos anos de Bar Brasil o senhor tem?
Ezio: Dia 1º de Setembro de 2013 eu fiz cinquenta anos de casa. Seguidos, sem ter saído por algum período para outro lugar.

Torreira: Como veio trabalhar no Bar Brasil? Como isso aconteceu?
Ezio: Tudo começou quando minha mãe ficou viúva. Somos cinco irmãos na família, sendo uma menina. Então ela teve que trabalhar em casa de família. Ela trabalhava para uma senhora austríaca lá no Clube Alemão, no Rio Comprido, em cima do túnel rebouças. Um dia ela comentou com esta senhora sobre a dificuldade que estávamos passando em casa, e então sua patroa disse que iria falar com um amigo para me arrumar um emprego. No dia 31 de agosto de 1.963 pela manhã ela me trouxe ao Bar Brasil e me apresentou ao dono na época, o Maier, um austríaco. Conversei com ele e no dia seguinte comecei a trabalhar. Estou aqui até hoje.

Torreira: Falemos um pouco do Bar Brasil. Os bares da Lapa se modernizaram bastante nesses últimos anos. Existem agora vários bares de filial, chiques, descolados... O senhor acha que isso vem prejudicando o movimento da casa?
Ezio: De maneira alguma. A tradição aqui fala mais alto, graças a Deus nossa freguesia segue firme e forte.

Torreira: Eu sei que a freguesia fiel das antigas sempre frequenta a casa. Existem fregueses novos se tornando fiéis também? 
Ezio: Sim. Muita gente nova passou a colocar a casa em seu cotidiano e vem toda a semana.

Torreira: Então podemos dizer que o Bar Brasil tem muita estrada pela frente ainda?
Ezio: Não tenho dúvidas.

Torreira: Quando o senhor está de folga, tem algum local preferido para beber sua cerveja? Ou o senhor não bebe?
Ezio: Eu bebia muito, era muito farrista, gostava muito de noitada... Mas hoje eu estou na igreja e não bebo mais. Estou bem assim.

Torreira: O senhor me disse que se aposentará em fevereiro. O que pretendes fazer quando isso acontecer?
Ezio: Eu vou pra roça. Eu tenho um sítio perto de Itaperuna e Santo Antônio de Pádua. Meu pai gostava da roça e por isso eu gosto também. Vou descansar por lá.




Torreira: E de vez em quando virás visitar o Bar Brasil?
Ezio: Vou sim. Meus amigos e clientes aqui são muitos. O pessoal tem pedido para eu não parar, dizem que estou novo, que posso esperar um pouco mais... Mas acontece que eu estou me sentindo cansado, não do trabalho, mas sim da obrigação diária de ter que levantar cedo, encarar ida e volta na condução... Mas sou feliz com meus patrões aqui, meus colegas de trabalho. Na realidade, quando estou voltando pra casa de metrô e começo a pensar que está chegando a hora de me despedir do pessoal aqui, minhas lágrimas começam a descer. Isso aqui é minha vida, tudo o que consegui foi este lugar que me deu.

Torreira: Seu Ezio, muito obrigado por bater esse papo comigo, foi um prazer. Virei ao Bar Brasil mais vezes até fevereiro para aproveitar sua presença na casa. Um grande abraço!
Ezio: O prazer foi todo meu. Conheço toda sua família e é sempre bom quando vocês estão por aqui. Fale para os seu tios Celestino e Benjamin aparecerem. Vou lá pegar mais um chope pra você.

Ezio, os fregueses do Bar Brasil sentirão muito a sua falta, o senhor é um dos melhores garçons do Rio de Janeiro, uma pessoal muito especial para vários bebedores de chope e amantes da tradição carioca. Espero que sejas muito feliz lá na sua roça e sempre que puder apareça para que possamos matar a saudade. Grande Abraço!

Até.

2 comentários:

leo boechat disse...

Muito legal, rápida conversa.

Fernando Szegeri disse...

Estupendo registro! Simples, sincero, respeitoso, sensível. Como deve ser. Três vivas ao Ézio! Três vivas ao Bar Brasil!