quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SAUDADES DO EL FARO

Em 1966 o restaurante El Faro, situado no posto seis de Copacabana, abria suas portas. Para ser mais preciso, ficava na outrora badalada Avenida Atlântica nº 3806. Meu tio Celestino, o Espanhol, foi quem abriu a casa, e nela ficou até o apagar das luzes, em 2002. Meu pai era sócio, e trabalhou entre 1968 e 1974. E foi aonde, aos treze anos de idade e com muito orgulho, comecei minha vida laboral.

O restaurante era definitivamente o melhor no assunto frutos do mar. Quem era freguês da casa sabe do que falo, quem nunca pôde dar as caras perdeu. A paella gigantesca, recheada de camarões VG e lagosta, era o carro chefe. Em segundo lugar ficava a casquinha de siri, eleita, por uma década, a melhor do Rio. Calarames a la madrileña e Polvo ao molho vinagrete também eram bem requisitados. As caipirinhas eram feitas para que o freguês pedisse pelo menos cinco delas, e o chopp era um CHOPP, tanto o claro como o escuro.

Ao seu lado ficava outro grande restaurante, o Rio Jerez, e mais à esquerda a famosa galeria Alaska. A badalação corria solta nos anos sessenta e setenta por aquelas bandas, e a casa ficava cheia todos os dias. Gringos pra cacete e pessoas famosas faziam o ambiente do lugar. Carlos Lacerda, Agildo Ribeiro, Agnaldo Timóteo, Juca Chaves, Costinha, Alcione (parece que meu velho deu umas carimbadas na Marrom), Rogéria, Cássio Loredano, José Augusto... Esses são alguns dos famosos que sei que eram fregueses.

O show dos Leopardos e dos Dzi Croquetes abarrotavam aquele canto no posto seis de Copa, e muita gente queria ver a bicharada em ação no palco. Em 1973, o arretado jogador de futebol Almir Pernambuquinho morreu ali com um tiro no meio da cara, depois de se meter numa confusão com uns portugueses que caçoavam dos rapazolas artistas do Alaska. Almir tentou defendê-los dos lusos e se deu mal. Meu tio conta que foi um corre-corre danado, mas que no final se deu bem, pois todos que estavam no Rio-Jerez, bar aonde rolou o furdunço, foram pra o El Faro.

Outro caso que me lembro bem, foi do ano novo de 1996/1997, este bem mais recente. Por causa dos fogos de artifício da praia de Copacabana, o restaurante lotava de forma anormal. Estava trabalhando nesta época, e lembro-me que tínhamos que fazer um pequeno esquema especial para que não houvesse baderna. Mas nesse ano houve um pequeno desentendimento, sempre tem alguém para dar um jeito de bagunçar o coreto. Eram mais ou menos 19 horas, cedo, e as mesas já marcadas esperando a freguesia. Nesta hora entra um homem bem arrumado, alto, bem alto, e posando com um crachá da prefeitura. Sem perguntar e falar nada com ninguém, sentou-se na melhor mesa e retirou o papel que marcava a reserva. Meu tio, explicou-lhe a situação trezentas vezes, mas o cara apenas mostrava-lhe o crachá e dizia que a mesa era dele.

- Pessoas muito importantes sentarão aqui. Dizia o caboclo.

Dava pra ver que o cidadão era um 171 daqueles, e depois de muito insistir meu tio começou a falar num tom mais elevado. Uma pequena discussão se iniciou, e o "homem da prefeitura" empurrou o peito do velho Celestino com suas duas mãos. Meu tio levantou e quebrou-lhe o braço com a facilidade que se rompe um palito. Não deu nem tempo pra eu pegar a perna da Xuxa, um taco de "baseball" que ficava debaixo da caixa registradora. Menos um para encher o saco.

Outro conto, desta vez engraçado, foi quando o Agildo Ribeiro tomou uma carraspana de vodka com uísque, o famoso drink Elis Regina, e resolveu transformar o bar em teatro. Subiu na mesa, tirou quase toda a roupa, imitava viado toda hora (não sei se ao certo era imitação), mas deixou a clientela morrendo de rir. Saiu dali engatinhando, e voltou no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.


Meu tio tirando um chopp na pressão.




Meu pai, o primeiro à esquerda, dentro do balcão, nos primórdios da casa.


Vi muita coisa durante meu tempo de El Faro. O que me orgulhava mais era de ver a cara de satisfação das pessoas ao provarem a comida. Depois que a galeria Alaska virou mais uma igreja daquelas que brotam em todas as esquinas, a redondeza nunca foi a mesma. Nos anos noventa Copacabana deixou de ser a badalação carioca, e o movimento foi caindo.

Mesmo com várias pedras no caminho, a casa somente arriou as portas em 2002, com a aposentadoria dos sócios.

Fica aqui a minha saudade do bar que foi minha casa, e que plantou-me na memória incontáveis momentos bacanas.

Até.

7 comentários:

Eduardo Goldenberg disse...

Sensacional, garoto! Sensacional! Salve o Espanhol e salve seu pai - cuja imagem, pela primeira vez, eu vejo.

Precisamos beber UMA hoje, que seja, em homenagem a eles. Sugiro Quitanda Abronhense.

Beijo.

Marcelo Moutinho disse...

Grande relato, Felipinho! Cheguei a tomar chope lá!

Arthur Tirone disse...

Porra, meu irmão...

fraga disse...

Canalha! Você acaba de foder o meu dia.

Amanhã, ao longo da pedalada, trataremos do superlativo El Faro [e ontem, no CG, você nada falou a respeito deste texto, pô!].

Saravá!

Luiz Antonio Simas disse...

Grande momento!

ricardo dias disse...

Estória verdadeira...mas essa de que seu Pai traçou a Marrom!!!
Aí já é demais!!!

Marlim disse...

Deu saudade. E olha que acabei de conhecer!