terça-feira, 16 de setembro de 2008

O NOME DELE É NUNES!

Muitos indivíduos nos dias de hoje se dizem entendidos sobre botequim, dão "conselhos", pitacos, fazem listinhas dos "dez mais", e o escambau. Seria muito bacana isso tudo, pena que a maioria desses entendidos soam a galhofa. É uma tristeza só, não sei se é para rir ou para chorar.

O que eu sei é que gosto de bares, das pessoas que habitam biroscas, dos sentimentos concebidos ali... Porém, tudo sem "lista" e sem o caralhoaquatro.

É por isso que todos os domingos, eu disse todos, às 9 da manhã, compareço ao bar Urca.

Você deve estar exclamando:

- O Felipinho vai para beber cerveja!

É verdade, claro que é para beber cerveja, mas o protagonista das minhas manhãs de domingo não é ela, é o NUNES! Não é o Nunes ex-atacante do Flamengo não, é o NUNES do Bar Urca.

O NUNES é uma dessas pessoas que habitam os botecos, por isso conto os segundos para que o meu domingo chegue. Logo de manhã ele serve para a rapaziada as Brahmas mais geladas, as mais bem criadas, com todo carinho, justamente por que sabe que nossa turma aparece naquela hora por elas.

O cearense NUNES começou no batente por aqui em 1971 no abolido Café e Bar Esplendor, em Ipanema. Este bar pertencia ao atual dono do Bar Urca, o seu Gomes. Em 17 de outubro de 1973, NUNES migrou para a Urca com o seu patrão, e ambos estão lá até hoje.

A descontração de nossa roda dominical de amigos de balcão é somada com a alegria do NUNES:

- Senhores do Conselho, vejo que vossa Brahma está findada! Falarei para a foca que vive na geladeira providenciar outra!

Assim urra de dentro do balcão o nosso NUNES, anunciando a chegada de mais uma mofada para nós.

Grande figura, grande sabedor de bar, grande personagem da boemia carioca.

E que os tolos entendidos fiquem longe dele!








Até.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ESPANHOL

Como alguns sabem, perdi meu pai quando tinha dezoito anos. O coroa morreu cedo, e não aproveitei muito a vida ao seu lado. Gostaria muito de poder dividir o balcão de um bar com ele. Deve ser muito bom beber umas cervejas ao lado de um pai, escutando seus conselhos, compartilhando histórias. Qualquer dia escrevo um pouco sobre o velho Manolo.

Enquanto crescia, dava um jeito de conseguir alguém que suprisse essa falta patriarcal, e não tive dificuldades, pois esta pessoa sempre esteve ao meu lado. Meu tio Celestino, irmão de meu pai, e mais conhecido como espanhol, é como um pai pra mim. É amigo, companheiro, dá e recebe conselhos, bebe comigo... Enfim, é um pai mesmo.

Meu tio veio para o Brasil em 1958, a miséria do pós guerra na Espanha durou anos. Hoje diz que é mais brasileiro que espanhol, e ama demais o país que o acolheu. Trabalhou a vida inteira no ramo de restaurante e bares, mais precisamente no extinto El Faro, em Copacabana. Falar do El Faro é outro capítulo. Ele ficava na Av. Atlântica ao lado da galeria Alaska, um dos redutos da sacanagem carioca. Presenciou muita coisa, uma delas foi a morte do Almir Pernambuquinho, que foi esfaqueado na frente dele. Depois de mais de quarenta anos atrás do balcão, meu tio resolveu "pendurar as chuteiras".

Quando saímos juntos, gostamos de ir nos bares onde estão seus amigos. Vamos muito ao Bar Brasil, que chamamos de Alemão, por causa do seu Pepe. Seu Pepe é amigão dele, e está há cinquenta anos no Bar Brasil. Semana passada estávamos por lá e pedimos chopp - na minha opinião o melhor do Rio - e para acompanhar, picles, pepinos em conserva, e paté com pão preto. Duas meninas e dois rapazes com ares de frescos entraram na casa e sentaram-se ao nosso lado. Pediram o cardápio, olharam para nossa comida, e chamaram o garçom:

- Garçom, tem hamburguer?

O bigode olhou pra nós, querendo rir, e respondeu na lata:

- Temos porco! Joelho, pé, orelha, linguiça de tripa...

A cara dos quatro forasteiros foi de pavor, se mandaram, e acho que nunca voltarão.

No Rio-Brasilia - nobre botequim da Tijuca - batemos o ponto quase todos os dias, somos da casa desde 1984.

Colecionando estes momentos nos bares que levo a vida com meu tio Celestino. Ficamos felizes e tristes juntos, na mesma mesa. Posso afirmar que sou um homem com pai, e que pai!





Só para finalizar:

Há vinte e um anos ele não vai à sua terra. Temos muita família por lá, e ele morre de saudades. Diz que só volta se for comigo, para bebermos em suas tabernas de infância. Ano que vem eu vou pra lá, e o que ele não sabe é que vou levá-lo também. Quando menos esperar estarei com os bilhetes na mão. Fico tranquilo em tornar isso público, pois meu amado tio não tem nem puta idéia de como se entra num computador.

Até.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

BAR SANTO ANTÔNIO

Caros, acabo de voltar do bar mais imundo e ao mesmo tempo mais bonito que já pisei. Chego em casa com a alma lavada.

O trabalho, que implica com meus nervos, fez com que eu tomasse rumo ao mais obscuro buraco etílico das redondezas.

O bar Santo Antônio fica na rua dos Inválidos, perto do Instituto Médico Legal e da igreja de santo Antônio, centro do Rio. Muitas pessoas, que acabam de perder seus parentes e amigos, saem do IML para afogar as mágoas ali.

Andava pensando no futuro incerto pelas ruas da cidade, quando dei de cara com este boteco, e nele estava meu camarada Ribamar. Ribamar é parceiro meu desde os primórdios de Armazém Senado. Ele toca violão, e estava se apresentando para os ébrios do local. Levava de Roberto Carlos à Nelson Gonçalves, praticamente uma fábrica de fazer chorar. Entrei no bar, puxei uma Brahma, e acompanhei aquele momento maravilhoso e único. Gente solitária e acompanhada habitava o local, cada uma do seu jeito.

Iniciei uma prosa com seu "Tasáfo" (apelido do caboclo), reformado da marinha, e com o seu Soares, morador do centro.

Seu Tasáfo é um baiano gente finíssima, e me admirou por ser novato e já gostar de acompanhar o cotidiano do povo. Disse-me o seguinte recado:

- Enquanto as pessoas compram no shopping agora, nós levamos nossa vida por aqui.

Matou a pau.

Seu Soares estava triste pra danado debruçado no balcão, não sei o que pensava, mas logo alegrou-se quando falamos de futebol. Ficou feliz por que sou América igual a ele, e a conversa rendeu bem.

Quando menos percebi estávamos todos no pé-sujo conversando juntos sobre o mesmo assunto, um tentando ajudar o outro, e com a trilha sonora sofrida do Ribamar.

Cerveja geladíssima, ovo cozido, e carne assada. Não é preciso de mais nada, é o que há no local.

E quando me despedia...

- Pelamordedeus, fica!

Foi o que disseram aqueles sinceros homens quando deixava o local, como se eu fosse um amigo querido de todos os dias.

Todas as regras de bar foram feitas, inclusive a saideira da saideira. Choramos e gargalhamos juntos. Como disse no início, saí de alma lavada em mais um dia de afeto com o povo. Agradeço simplesmente por fazer parte dele, e sou completamente feliz por isso.

Para acabar, falta dizer que o dono do botequim, o seu Davi, é América, e acredita na volta por cima.

Ganhei o dia!















Ébrio solitário.







Seu Tasáfo



Seu Soares e sua tristeza.


Até.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

BOM AMIGO

Bom Amigo é o nome do simpático boteco do seu Celso, na esquina das ruas do Resende com Gomes Freire, no bairro da Lapa. Passei parte desta noite de segunda-feira por lá, e percebi que este nome realmente lhe cai bem.

Seu Celso é um potiguar que trabalha atrás deste balcão há exatos vinte e cinco anos. Ele era funcionário da casa, e depois que soube que o antigo patrão venderia o pé-sujo, juntou os trocados e comprou o local. Sábia decisão.

Brahma, Antártica, Skol, Itaipava, e Serra Malta, são as cervejas claras da casa. Degustei uma geladíssima Brahma. Caracu, Malzbier, e Black Princess são as morenas que completam a carta de geladas. Uma imagem de São Jorge na parede é rodeada pelas inúmeras bebidas quentes, estão ali para dar água na boca nos apreciadores de cada dia. Caldo de mocotó, ovo de codorna, e porção de carne assada, fazem parte das iguarias do bar.

Seu Celso conversava com um senhor de origem japonesa, que jantava um angu, como se ele fosse local. Falavam sobre a tal da lei seca. Sabe como é botequim, quando menos esperamos já estamos na conversa. E lá fui eu. Depois de vinte minutos de prosa, seu Okimura, este é o nome deste senhor, revelou-me que come todas as noites ali para assistir o telejornal com o seu Celso. Disse-me que é viúvo e mora sozinho, e seu parentes vivem em Volta Redonda.

- É muito ruim ver televisão sozinho em casa.

Confessou-nos naquele boteco, este solitário homem oriental. Lembrei-me imediatamente de meu camarada paulista Szegeri, que escreveu dia desses sobre a solidão do boêmio (leia aqui o texto "Ai de nós!"). Por isso, creio eu, o nome BOM AMIGO está bem escrito no letreiro empoeirado do recinto.

Vale dizer também que até às 18 horas, hora da Ave-Maria, a badalação do pé-sujo fica por conta das ondas da rádio AM. Depois entram os telejornais, para a alegria do seu Okimura.









Seu Celso



Seu Okimura - ao centro - assistindo o telejornal.



Outro solitário de balcão.


obs: Peço desculpas pela qualidade das fotos, foram feitas pelo telefone celular. E telefone é feito pra se falar, não pra se fotografar.

Até.

domingo, 13 de julho de 2008

BAR DO SEU ROBERTO

Ontem às sete da manhã já estava pegando a barca junto com minha bicicleta para fazer um passeio até a linda Fortaleza de Santa Cruz. Já perdi as contas de quantas vezes percorri este caminho sobre duas rodas, tanto sozinho como com os amigos. Neste agradável passeio existe uma obrigatoriedade, que é parar no bar do seu Roberto para um calibre ao retornar da Fortaleza.

Seu Roberto é um português de 62 anos, que desde 1978 está comandando o Bar Flor de Jurujuba, em Jurujuba, é claro. Lugar agradabilíssimo, com uma vista muito bacana, botequim daqueles que ficamos com preguiça de tirar a bunda da cadeira para ir embora. Atendimento de primeira, cerveja sempre mofada, e um sanduíche de queijo minas que é sacanagem. O boteco fica exatamente ao lado da igrejinha de Jurujuba.

Ontem tive a oportunidade de reencontrar um freguês ilustre da casa, o seu Ubaldino. Foram poucas as vezes em que passei pelo bar e este nobre homem estava ausente, ele é patrimônio do local. Puxando uma prosa com ele fiquei sabendo que além de ser fã de conhaque (vide foto), o seu Ubaldino toca flauta e cavaquinho às sextas numa roda de samba dos coroas da redondeza, ali mesmo, no seu Roberto. Com a elegância de um lorde, convidou-me para vê-lo tocar dia desses, eu agradeci, e depois de trocarmos mais uns dez minutos de conversa me despedi.



Seu Ubaldino e seu conhaque


Mais um freguês apreciando local


carta de cervejas


Hélio, Fraga, e Digão


outras bebidas


vista

O Bar do seu Roberto é assim, você chega na primeira vez e tem a sensação de que é frequentador há décadas. Sempre somos bem recebidos.

Quando passarem por aquelas bandas lembrem-se que o Flor de Jurujuba é parada obrigatória para um calibre de qualidade e uma prosa da boa.

Até.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

FUI AO PANAMÁ

Não meus caros, não estava passeando pela América Central, o Panamá de verdade fica em Copacabana.

Sabendo de minha exagerada adoração por bares, meu camarada Lito recomendou-me uma visita à este boteco, dizendo maravilhas do mesmo.

Minha curiosidade foi aumentando a cada dia, cheguei a não dormir direito pensando neste santuário etílico. Ontem pela manhã já estava tremendo e roendo as unhas, foi aí que tomei a decisão de conhecer logo o Panamá bar. Saí do trabalho diretamente para o local, onde inclusive marcara com o meu cunhado.

O bravo botequim tem à sua esquerda o Bob´s como vizinho, e à sua direita o esquálido Belmonte. Ou seja, presas fáceis para o bar do seu Antônio. Seu Antônio, estive conversando com ele, tem 72 anos e está ali desde 1968. Este nobre senhor de origem espanhola disse-me que só deixa o local quando esticar as canelas, e complementou dizendo que aposentadoria é uma palavra que não está no seu dicionário. Quando as pernas dão sinal de cansaço, ele senta no seu cantinho e fica saboreando uma cerveja preta. E ainda temos o Freitas atendendo no balcão, sempre atencioso para não nos deixar de copo vazio.

O Panamá bar é dos nossos. Porções de jiló, batata calabresa, moela (foi o que comi), ovo amarelo, sopa levanta defunto, língua ao alho, e muitos outros belisquetes. Uma enorme estante de madeira é completamente povoada por incontáveis garrafas, de todas as bebidas que pode-se imaginar. Além das cervejas que bebi, geladíssimas por sinal, provei uma dose de Pau Pereira para limpar o esqueleto. Como caiu bem a danada!


Outra coisa que me chamou a atenção foi o cuco pendurado em uma das paredes, isso mesmo um relógio cuco que toca de hora em hora.

Agora eu já estou apto para sugerir uma visita ao Panamá. Se passarem pela Domingos Ferreira quase esquina com Bolivar, não hesitem, bata no balcão e peça logo sua bebida e seu petisco neste maravilhoso bar. É felicidade na certa.



Até.