terça-feira, 19 de outubro de 2010

SAUDADES DA GONORRÉIA

Rua Pinto de Azevedo, Laura de Araújo, Carmo Neto, Julio do Carmo, Benedito Hipólito, Travessa do Guedes... Essas e demais ruas adjacentes formavam o pólo da orgia carioca dos anos 50 e 60 na zona do mangue, o chamado baixo meretrício. Era um raio de mais ou menos três quilometros. O local era o parque de diversões dos marmanjos boêmios e o "playground" da molecada de doze, treze anos que estava debutando na vida sexual. Era de lei os garotos serem levados por um tio, pai, ou qualquer outro parente para dar uma olhada nas moças das janelas e depois dar uma entrada e descobrir o que é bom.

Algumas meninas que ali trabalhavam vinham do norte, outras eram cariocas mesmo e o "chantilly" eram as polacas. As "polacas" eram moças que vinham dos países atrasados com aldeias pobres do leste europeu, como Romênia, Polônia, Hungria e Russia, para tentar a vida aqui. A opção era se prostituir. Como eram loiras, altas e de olhos claros, se encaixaram como uma luva num ideal extremamente romantizado da burguesia carioca e começaram a ser consideradas produto de primeira categoria. Mas não se engane pensando que os brotos eram somente as polacas. Havia muito mulherão de corpo violão na janelinha também. Se você tivesse uma moeda de cinco mil réis na mão, conhecida popularmente como "voando para o mangue" por causa de seu desenho alado, já podia se divertir com uma dona.





Bom, mas o mais legal desta época era não se preocupar em sair de um programa desses com a sentença de morte selada. Não tinha a SIDA, por exemplo. Se podia contrair uma gonorréia mas aí era só tomar bezetacil e pronto. E quando um moleque da patota da rua aparecia com gonorréia era o maior status, ganhava fama de malandro precoce, deixava de ser criança entre os outros amigos.

O cuidado que temos que tomar hoje não é só com as primas, mas com qualquer pessoa. Viramos reféns da borracha cilíndrica maldita, pois sem ela não dá. Estamos quase chegando num ponto em que malandro mesmo vai ser quem não comer ninguém. Um dos maiores prazeres do universo periga acabar no esquecimento, isso tem cara de ser coisa da igreja. Vamos viver de documentos para provar que o coito existiu e as revistas suecas irão valer mais que petróleo.

A conclusão que tiro é que em quase tudo o mundo avançou andado pra trás. Uma pena. Eu tenho saudade de muitas coisas que faziam um mundo melhor e hoje estão em desuso, uma delas é a gonorréia.

Deixo com vocês um vídeo raro da TV Tupi com imagens da Pinto de Azevedo em 1953 (Alô Zé Sergio). Notem a quantidade de homens nas ruas, as meninas se escondendo ao perceberem a filmadora e a placa da rua Pinto de Azevedo sendo focada pelo cinegrafista.



Até.

5 comentários:

Paulo Rogerio disse...

Felipe,

Parece inclusive que as "primas" de antigamente eram bem mais garbosas que as de hoje !

E elas usavam roupas comportadíssimas tb.

Anonymous disse...

grande retorno Felipinho... mui bem lembrado...

Anonymous disse...

grande retorno Felipinho... mui bem lembrado...

implacavel disse...

Putz...hj em dia naquela área tem o Teleporto, o Piranhão, os Correios e a Universidade Petrobras!!!!
Acabaram com aquele espaço de balburdia....

Anônimo disse...

Oi, galera da velha guarda.
Com certeza, anos 50 e 60, mas eu peguei o finalzinho da zona, já em fase de extinção, quando eu era adolescente, na primeira metade dos anos 70. Tive gonorreia e - desde o "advento" da AIDS (ou SIDA) - dá pra sentir saudades de doenças curáveis com Tetrex e outros antibióticos. Mas o que me dá saudade mesmo é aquela mulherada. Algumas eram super legais, carinhosas e muitas vezes afetuosas. Naquele ambiente eu vi de tudo. Assim como em qualquer outro lugar, lá a gente via todo tipo de temperamento. Tinha garotas mais novas e mais velhas (não me refiro as velhas mesmo, mas àquelas na faixa dos 30. Essas (principalmente uma delas) às vezes tinham um jeito meio maternal comigo – é claro, não totalmente maternal, porque aí dão ia rolar nada. A questão é que, mesmo quando tinham o respectivo “amigo”, conforme elas se referiam aos amantes (que nem sempre eram cafetões), às vezes elas tinham um freguês querido, de tal modo que rolava um certo clima não declarado de namoro entre a mulher e o freguês. Eu fui um desses “favoritos”, tive essa experiência. E, naquela zona mal conservada, naquelas ruas sujas, eu tive uma enorme experiência e conhecimento do ser humano. Conhecendo as putas – não só de perto, mas também com frequência – a gente descobria, naquele tempo, verdadeiras preciosidades humanas. Tenho saudade dessas putas que me deram tanto aconchego na minha adolescência. E, de fato, hoje não se encontra mais algo assim. Hoje nem se diz mais “puta”, agora é “garota de programa” (coisa mais sem graça...). Duvido que essas “garotas de programa” atuais tenham o talento de uma mulher da chamada ZBM.
Valeu, galera !! É muito legal haver este espaço na web pra a gente lembrar os bons tempos...