domingo, 25 de outubro de 2009

O AMOR ACABA EM PETRÓPOLIS - parte 1

Em 1970, já acostumando com o Rio de Janeiro depois de dez anos vivendo na cidade maravilhosa, Conde conheceu seu primeiro amor. Desde que desembarcou de navio em plena Praça Mauá em 1958 tem este apelido, não me pergunte o motivo. Talvez o tenha desde garoto. Vive dizendo da surpresa e maravilha que foi ao desembarcar no porto carioca, muita movimentação, trabalho, vida e rabos opulentos balançando.

Mas como escrevi nas primeiras linhas, foi em 1970 que seu coração foi apunhalado por uma garota. Conde conheceu Elizabeth Marques de Oliveira na Av. Mem de Sá, ao lado da hospedaria em que morava. Elizabeth era figurinha fácil no pedaço, já que seu pai, o velho Oliveira, tinha comércio na rua, a famosa sapataria Motinha. Começaram naquela conversa de encontros repentinos, mas logo estavam de mãos dadas por aí. O jovem gringo sempre a levava para beber um cubalibre no fim de tarde em Copacabana, mas com a condição de trazê-la no portão do prédio às 22 horas em ponto. O velho Oliveira gostava muito de Conde, mas fazia questão dos bons costumes. Beth, vou chamá-la assim, morava no Estácio, na rua Sampaio Ferraz. Ela era realmente encantadora, e sempre usava vestidos, sempre, da mesma forma que laços no cabelo. Parecia uma boneca, dava vontade de tocar, e Conde estava hipnotizado por ela.

Aproveitaram aquele ano com muita voracidade, como se fosse o último de suas vidas. Viram juntos a chegada de nossa seleção após o tri campeonato mundial de futebol, no meio do povo, nas escadarias da biblioteca nacional. Enquanto Pelé e companhia passavam em carro aberto pela Av. Rio Branco, os dois jovens trocavam beijos calorosos, quase deixando aquele momento tão esperado por tantos brasileiros escapar de seus olhos e entrar na memória para sempre. Também fizeram juntos uma viagem inesquecível para Niterói, passando antes por Magé. Conde pegara o Vemaguette de um amigo emprestado para este passeio. Foi um momento mágico para Beth, pois estava pisando em um lugar diferente, e ao lado do homem que a deixava nas nuvens. Sentiu-se pela primeira vez uma mulher. Outra coisa que sempre faziam nas folgas de Conde era o piquenique em Ponta Negra. Como eram felizes, formavam um casalzinho perfeito mesmo.

No fim deste ano, Beth teve que se mudar com a família para Petrópolis, pois seu irmão mais velho, o Germano, andava tendo umas atitudes que os gorilas não gostavam muito. Portanto, perigava ser recolhido para uma tortura ou mesmo para sumir do mapa. Foi um notícia muito ruim para o Conde, pois Petrópolis não era ali na esquina, e o dinheiro da condução teria que sair do seu bolso.

Mas isso não foi empecilho para ele, que começou seu cotidiano de idas e voltas à cidade imperial. O endereço da moçoila era rua Colômbia 142, casa 4, bem defronte ao Palácio Quitandinha. Com esta mudança Conde teve que trabalhar mais para almejar uma aumento de ordenado, já que os gastos eram maiores agora. O seu patrão, seu Domingos, que era também seu cunhado (casado com Maria, sua irmã), viu o esforço e o tamanho do amor do rapaz e não tardou em promovê-lo. Conde trabalhava de camareiro num restaurante em Copacabana e logo virou maitre.

Depois de uns dois meses Conde já achava Petrópolis ali do lado. Ficara amigo do Coelho, motorista do ônibus que sempre o levava, e com quem conversava durante a curta viagem. Mesmo quando os assentos já estavam totalmente ocupados, Coelho o deixava entrar. Algumas vezes, devo frisar que poucas, Conde perdia o ônibus, mas não desanimava. Pegava taxi, sim, taxi. Apesar do golpe duro em seu bolso, valia a pena, já que o amor não tem preço. Conde estava feliz, e Beth, apesar da falta de costume inicial, acabou gostando da cidade. Os dois juntos construíam sonhos bonitos, e tinham a certeza de um futuro a dois debaixo do mesmo teto.

Dois anos depois, em 1972, Conde já estava como gerente, e comprara um fusca de segunda mão, de cor laranja, placa CQ-1491. O trabalho aumentara bastante, e mesmo possuindo um automóvel não tinha o tempo livre de outrora. Não podia mais visitar sua pequena com a frequência que desejava. Aumentaram seus gastos de telefone, mas o invento de Graham Bell não lhe trazia o cheiro de menina-mulher que vinha das curvas de Beth, que acabara de completar vinte anos. Isso o perturbava, mas fazer o quê?

Um certo dia, um amigo do peito foi ao restaurante e chamou-lhe para uma conversa reservada. Como o local estava vazio, Conde tirou dois chopps com colarinho e sentaram-se. Pelo esgar de seu amigo percebeu que o motivo da prosa não era muito bom, e antes que Orlando (eis o nome do caboclo) pudesse soltar alguma meia palavra de sua boca, resolveu pegar um pratinho com picles. Depois disso, Orlando foi direto:

- Conde, você precisa rever seu romance com a Elizabeth...

- Não temos um romance, e sim um relacionamento.

- Que seja, Conde, mas acho que algo não está certo.

- Como assim, Orlando! Que porra é essa?

- Sabes que tenho família em Petrópolis, e quando posso estou por lá. Ontem conversava com a mulher do meu irmão, a Alzira, e ela andou me falando umas coisas que não gostei muito...

- Sem delongas, Orlando, sem delongas! Caralho, fale logo de uma vez homem infeliz!

- É que a Alzira disse que viu a Beth no Petrópolis Tênis Clube no maior amasso com o Alberto, um cara metido a rico que não passa de um playboy filho-de-papai.

Conde se levanta num rompante, e sem medir a força que aquela exasperação havia lhe dado, arrebenta a mesa com um soco assustador. Depois complementa aos brados:

- Não pode ser. Não acredito, nós nos amamos e vamos nos casar, porra. Deve ser um engano, Orlando. A vadia da Alzira não usa aquele "fundo de garrafa" pra poder enxergar um palmo diante o nariz? Então deve ter sido engano!

- Pode ser, Conde, mas ela me deu certeza, estou apenas te alertando.

- Vou subir a serra amanhã pela manhã, tenho que ver isso de perto, com os meus olhos.

Orlando tenta acalmar seu amigo, mas em vão, e depois vai embora prometendo ligar no dia seguinte bem cedo.

A cabeça de Conde se enche de minhocas, o dia para ele acabou-se ali.

[continua]

4 comentários:

Anonymous disse...

kd a parte 2 Felipinho.....

Arthur Tirone disse...

Tá com preguiça, mano?

Felipinho disse...

Favela e anônino, não é preguiça!!! Calma que a parte dois vem aí. Tou trabalhando quase doze horas por dia!!!

Abraços.

Anonymous disse...

O Conde está parado na Casa do Alemão(do Quitandinha) esperando o Felipinho acabar...abrs...