quinta-feira, 9 de julho de 2009

UMA INFÂNCIA NA TIJUCA

Desde que nasci moro na Tijuca. Tantas coisas se passaram e muitas delas estão em minha memória. Como ainda vivo no bairro, continuo colecionando momentos para guardar eternamente, ou pelo menos até a cachola suportar. Fiz tudo o que um garoto criado na rua fez, e não tenho recordações ruins, muito pelo contrário. Brincava bastante, mas a pelada no asfalto era o principal passatempo.

Desde moleque andava sozinho pelo bairro, e fui fazendo minhas amizades. Lá pelos meus sete, oito anos, não frequentava bares sozinho, somente com meu velho (que, aliás, completaria 61 anos hoje se não tivesse ido embora tão cedo). Meu pai gostava do extinto bar do seu Antônio - que ficava aqui na esquina de casa -, do extinto Divino bar, do extinto bar Comodoro, e do bar que entrou em extinção há pouco menos de um ano, o Rio-Brasília. Eu andava pra lá e pra cá ao seu lado, e esperava com a maior paciência do mundo que ele terminasse de beber suas cervejas e doses de conhaque Presidente. Papai me achava meio estranho pelo simples fato de não pedir coca-cola igual aos outros garotos, preferia, e ainda prefiro, água tônica. Pois então, meu caros, sem me dar conta já estava fazendo amigos de balcão, e alguns daquela época permanecem até hoje.

Eu era criança mas não era trouxa, e sabia que com o meu comportamento exemplar dentro dos botecos poderia conseguir meus objetivos. E na maioria das vezes conseguia. Quando saíamos do saudoso Divino depois de algumas horas (que saudade do garçom Celestino, xará do meu tio), sempre suplicava ao meu velho pra que entrássemos no fliperama da rua do Matoso, onde atualmente fica um salão de cabelos. Papai jogava pimball, e eu ficava em qualquer um que tivesse volante. Do outro lado da rua, ainda na Matoso, ficava a loja da Caloi, onde hoje é a vidraçaria Rio de Janeiro. Ali fazia a manutenção de minha Caloi dobrável ano 1981 (que tenho comigo até hoje guardada), e meu pai fazia na dele, uma Caloi 10 ano 1979, que é minha atual bicicleta.

Ao lado de minha casa havia a loja da Kibon, na Barão de Itapagipe (hoje o estacionamento do Bradesco Seguros). Rodeava aquele lugar, era na esquina da rua! O Baiano, nunca me esquecerei daquele vendedor negro, magro e cheio de guias brancas e vermelhas no pescoço, fazia fiado pra mim quando pegava meus picolés. Saía dali achando que mandava no pedaço, mas depois descobri que meu coroa acertava no fim do mês. Raramente pintava na sorveteria Sem Nome, que situava-se na esquina de rua do Bispo com Haddock Lobo, pois lá não havia picolé, só casquinha. Passava por lá somente com a família inteira, quando fazíamos um passeio dominical.

Ao lado do colégio Carrescia ficava a fábrica do cachorro-quente Genial, que veio a findar no final dos anos oitenta. Também não andava muito por ali. Gostava de doces, ainda gosto, e pirava mesmo dentro da doceria Popeye, que resiste firme e forte, mesmo em épocas futurísticas, defronte a colégio Mario Cláudio. Doce de abóbora e balas dulcora eram meus preferidos. Quando era maiorzinho papai me deixava ir sozinho até a Gerbô, na Mariz e Barros, e me deliciava com a Vaca Preta da casa. Quase sempre fazia isso sem a sua presença, pois ele não aparecia muito pelas bandas da Afonso Pena. Suas ruas preferidas eram a Haddock Lobo (na altura da Matoso), a Matoso, Barão de Itapagipe, Sampaio Ferraz (no Estácio, ele amava o Estácio), Aureliano Potugal com rua do Bispo (no Rio Comprido) e nossa, a Barão de Sertório.

Aos treze anos, quando começei a trabalhar com ele, fazíamos algumas compras para seu bar (ele sempre trabalhou nisso) no Superbox, atual Extra da Mariz e Barros. Achava o supermercado imenso! Era também na Mariz e Barros que ele comprava seus carros, sempre no antigo posto Lord. Seu predileto era o Corcel II, adquiriu três ali.

Como podem ver, o amor que sinto pela Tijuca deve-se muito ao velho Manolo. Nasci aqui graças a ele e cresci aqui graças a ele. Claro que mamãe também está nessa. Um homem que veio muito novo como imigrante, se instalou na Tijuca, e daqui nunca mais saiu. Teve condições financeiras para morar em qualquer lugar da zona sul mas nunca largou seu quarteirão. Prezava muito a amizade e suas caminhadas pelas ruas do bairro. Lembro-me que quando completei meus dezoito anos, seis meses antes de seu falecimento, bebemos nossa primeira cerveja juntos, no balcão do bar do seu Antônio. Ele bebia Antartica.

Bom, vida que segue, e viva a Tijuca, mais bela do que nunca. Felizes são os que vivem por suas ruas, os que amam este lugar, os que se emocionam com sua gente, os que têm história pra contar. Eu sou um felizardo.

Até, e parabéns velhão.

4 comentários:

Nelson Borges disse...

Felipe,
você sempre escreve com o coração aberto, e conta suas histórias e percepções assim como elas lhe parecem, sem rodeios.

Mas dessa vez, talvez pela data e pela lembrança do seu pai, você se superou, o texto está emocionante e rico nos detalhes que sua memória lhe permitiu lembrar.

Parabéns!

Olga disse...

Ô, Felipinho, seu singelo e emocionante texto me fez viajar longe... tudo tão familiar.

Muitas vezes, voltando do trabalho, me distraio e passo do meu ponto. Não são poucas as vezes em que isso acontece e aproveito para voltar ziguezagueando entre as ruas Domício da Gama (uma das ruas mais bonitas da Tijuca, com seu casario e suas árvores que, por não se encontrarem, fazem a luminosidade da rua ser especial, pelo menos aos meus olhos), Caruso, São Vicente e depois a minha.

O fechamento do Divino foi um duro golpe, e que muito mal fez àquela parte da Tijuca. Jamais esquecerei dos chopes tomados em pé no balcão, dos potinhos de pudim de leite empilhados, das pizzas entregues em casa, que, de vez em quando, vinham, tal qual um brinde, com o grampo da embalagem preso num dos pedaços, dos cheques trocados, sábado à noite, pelo garçom-amigo Faria e de quem sinto imensa saudade.

O bairro da gente é especial, por muitas coisas, mas é especial mesmo porque é o nosso. Esse sentir me faz, sempre, lembrar um pedaço do poema do grande poeta Pessoa:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia (...)"

Espero que você perdoe o longo comentário, mas foi deveras inevitável.

Felipinho disse...

Nelson e Olga, muito obrigado pelas palavras. Meu sentimento pelo bairro é tão grande que às vezes vou às nuvens.

Você, principalmente, Olga, sabe do que digo, pois vives aqui há anos como eu.

Grande abraço aos dois.

ricardo silver disse...

olá a todos
era justamente no bar Divino,onde foi pintado atras do palco, uma obra prima de varios instrumentos, pelo artista plástico e maestro Mario Adamo Almeida.uma verdadeira arte. hoje em dia, sua neta é minha esposa eu por coincidencia,sou músico e tenho uma banda de Jovem Guarda,sendo muito conceituada aqui no Rio de Janeiro...qualquer contato...
ricardosilver1@hotmail.com
abraços a todos