quarta-feira, 13 de maio de 2009

UM ATROPELAMENTO MUITO BONITO

O INÍCIO DA SÉRIE "AS MULHERES DE MEUS DEVANEIOS".

Na década de oitenta ainda era moleque, e quando não estava na escola jogava bola na rua. No dia 29 de junho de 1986, um domingo, todos da rua assistiam à final da copa numa televisão colocada na calçada por um vizinho, que se não me falha a memória era o tio Elói. A maioria torcia pela Alemanha, mas depois do apito final tivemos que nos render ao talento de Maradona. O cara acabou com tudo.

Terminado mais um Mundial, começamos a tirar os times e marcar os gols com pedras, no meio da rua, para mais uma pelada. Nossa rua sempre foi muito tranquila, nos proporcionando um belo futebol no asfalto. Driblávamos árvores, meio-fio, frades... Poucas eram as vezes em que fechávamos a rua com cavaletes. Era uma época que só queria jogar bola, e como a maioria dos pirralhos da rua, ainda não tinha olhos para as curvas das mulheres, não pensava em namoradinhas, beijar na boca, e todas essas coisas boas da vida.

Lembro-me perfeitamente que estava empolgado neste dia, endiabrado, querendo ganhar todas as partidas para não ficar na de fora. Num certo momento em que tentava driblar um adversário na velocidade, um fato brusco e inesperado mudou a minha vida. Fui atropelado por uma bicicleta de carga. O entregador do extinto supermercado Nova Olinda da Haddock Lobo vinha embestado, pois acabara de descer a rua Conselheiro Barros, uma das maiores ladeiras da Tijuca. Me pegou em cheio, nem vi de onde veio, caí no chão e fiquei.

Para a minha sorte a porrada não foi na cabeça, mas machucou bastante o meu joelho. O sujeito desceu para me ajudar, e ao mesmo tempo se isentar de culpa, afinal de contas estava correndo igual um louco no meio da rua. Começou-me a indagar sobre o meu estado junto de meus amigos, mas quanto mais eles falavam, menos eu ouvia. Estava ficando completamente surdo e mudo, mas cego não. Observava na caçamba laranja da bicicleta uma imagem linda, doce, apaixonante, e que me deu o primeiro sentimento de homem na vida. Era a foto da Silvia Bandeira, uma das páginas de sua "Playboy" de 1983 estava colada na frente na bicicleta. Nessa altura a minha dor no joelho já havia passado.

O ciclista peralta foi embora, e eu fiquei sentado na calçada abraçado ao meu joelho e pensando somente nela. Era um sentimento que jamais tivera, estava completamente gamado. Não consegui continuar jogando, fui pra casa bem mais cedo do que de costume. Fiquei sonhando com cada detalhe de seu rosto e de suas curvas por toda a noite. Estava amando a Silvia. Acordei na segunda-feira bem cedo, e antes de ir para a escola passei na banca do seu Antônio para ver se ele me arrumava a revista. Minha tentativa foi em vão. A revista era de três anos anteriores, tinha sido recolhida há tempos. Mas o velho Antônio prontamente percebeu a tristeza e decepção no meu olhar, e disse que faria o possível para encontrar a revista de minha deusa. Ainda tentou me empurrar a Playboy da Yoná Magalhães, que estava fresquinha nas bancas, mas recusei.

Sem acesso aos meios de comunicações de hoje, tive que ficar na imaginação, e deixar um espaço reservado na minha memória para que o rosto de minha menina não se apagasse de forma alguma. Depois de três meses do atropelamento, e nada da revista da Silvia, resolvi abrir o jogo com o meu velho. Estava desesperado! Fui falar com o velho Manolo sobre o meu problema, e ele, um dos espanhóis mais grossos que já vi, ficou todo orgulhoso. Disse que podia pegar qualquer revista na banca da esquina com o seu Antônio que ele pagava, mas eu retruquei imediatamente explicando-lhe que só a da Silvia servia.

Depois de um mês dessa conversa, e "nadica de nada", pensei em entregar os pontos. Até que um dia resolvi dar uma passada nos sebos da Regente Feijó, no Centro, e encontrei a revista. Era moleque, mas já andava de ônibus sozinho. Quando fui abrir para apreciá-la, uma velha mal amada, que era a dona do sebo, arrancou o meu desejo de quase um ano das mãos, sem um pingo de dó, porque era de menor. Insisti pra cacete, mas em vão. Então passei a informação para o meu coroa, que depois de dois dias pintou por lá, mas a velha infeliz disse-lhe que já haviam levado. Até hoje acho que ela mentiu. Ordinária!

Nunca, até este prezado momento, tive esta revista. Às vezes entro nos sebos da cidade como se fosse o guri de vinte e poucos anos atrás na esperança de encontrá-la.

Mas o final do conto é feliz, pessoal. Meu amado pai, que hoje descansa em paz, entrou em casa eufórico uma semana depois da ida ao sebo. Tinha conseguido uma cópia do filme "Bar Esperança", do Hugo Carvana. Eu não entendi direito, até o filme começar... A minha Silvia Bandeira, para a felicidade de meus debutantes testosteronas, fazia pra mim, na sala, um stripe-tiase maravilhoso, ficando nuazinha, linda, toda delicada . Minha paixão por ela era tão doentia que cheguei a sentir seu cheiro, e comecei a acariciar a tela de nossa tv telefunken. Lembro da cara de espantado do meu pai com a cena.

Sempre que rezo pelo meu velho agradeço por este momento inesquecível em minha vida. E um dia, se conseguir a "Playboy" de número de série 93, do mês de abril do ano 1983, dedicarei esta conquista a ele, que tanto buscou este objeto importante para ver seu filho, ainda criança, feliz.



Até.

5 comentários:

Arthur Tirone disse...

Silvia Bandeira está para o Felipinho assim como a Konga para o Simas!

Beijo, maninho!

Anonymous disse...

eu a conheci novinha,,,antes de casar...linda

Szegeri disse...

Depois ela casou com o porco gordo do Jô Soares...

Marlim disse...

Rapaz, mas que memória fantástica. Não me canso de ficar surpreso pelos blogs à fora.

Maíra disse...

Sou do Fã-clube da Irene Ravache. Você não fotografariaa entrevista dela nessa revista pra gente?

Abraço!