terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O BOUGAINVILLE DA CASA VERDE

As luzes estão em moda na época de natal. Nas casas, prédios, sacadas, varandas, portarias, e por aí vai. No sindicato dos fumageiros, na rua Haddock Lobo, está o mais belo enfeite de todos, vale conferir.

Ontem cheguei em casa cedo, por volta das seis. Tinha muita coisa a fazer e precisava estudar. Depois do banho tomado, e antes de iniciar as atividades, peguei uma café e fui para a janela. Os enfeites dos prédios já estavam quase todas acesos, em harmonia, quando uma série de explosões me assustou. Foram três, a última bem mais forte. Depois disso, tudo se apagou, e logo percebi que alguns postes e o transformador do quarteirão haviam ido pro beleléu.

Como numa feira ao ar livre, os moradores começaram a sair das casas e conversar umas com as outras enlouquecidamente, queriam saber o motivo da tal barulhada. Resolvi calçar minhas chinelas e partir para "prosa" também. Quando cheguei na rua, já havia um movimento de gente em direção à casa da dona Margarida.

Dona Margarida é a viúva do seu Antônio, que era o alfaiate da rua, e mora no número 35, numa casa verde bem bonita. Sempre que encontro com ela tenho que esquecer da minha pressa, pois conversa há.

Chegamos defronte a casa, vimos um caboclo com uma corda na mão, e uma boa parte na árvore bougainville da dona Margarida no chão. O ocorrido foi que a senhora contratou o homem para podar a árvore, e a besta resolver começar laçando um galho alto para facilitar o resto de sua labuta. Acontece que junto do enorme galho veio a fiação toda, que entrou em curto, e fez as explosões em série.

Depois que todos souberam o motivo, foi uma algazarra só. Umas reclamando por causa da hora da novela, outras porque o marido estava pra chegar e não podiam fazer a comida (já estava escurecendo), e teve até uma senhora, acho que se chama Maria, que reclamou que estava perdendo seu programa no rádio.

Eu olhava meio de longe, rindo da bagunça, quando dona Margarida me chama com um aceno. Me levou para o quintal e disse:

- Felipinho, o seu Tomé fez uma cagada, acho que acabou a luz no bairro! Vou resolver isso agora, liga para light pra mim pois não sei onde coloquei o óculos.

E enquanto ligava comentei:

- Acho que isso vai demorar, escutou o barulho?

E ela:

- Não vai não, deixa comigo.

Em trinta minutos chega o pessoal do reparo, e logo perceberam que havia platéia. As senhoras já estavam sentadas em cadeiras do lado de fora das casas. Aquilo tinha virado um evento. Eu fiquei durante a meia hora de espera conversando com dona Margarida.

Os homens deram uma olhadela rápida e constataram:

- Vai demorar um pouco.

Foi aí que Dona Margarida entrou em ação, comecei então a entender o "deixa comigo" que ela havia me falado antes. Chamou a rapaziada para dentro de sua casa e disse:

- Olha só meus filhos, preciso que esta luz volte logo, tenho muita coisa para fazer hoje ainda, e minhas vizinhas estão impacientes...

E um dos homens:

- Senhora, já falei que vai dem...

Ela corta a fala do caboclo:

- Lá nos fundos da casa, bem escondida, tem uma geladeira cheia de cerveja gelada, tudo pra vocês. Faço uns sanduiches para acompanhar. Vocês precisam se alimentar depois do trabalho, né? Saco vazio não fica em pé!

Os olhos da peaõzada brilharam de uma forma nunca vista, e como sedentos no deserto concordaram com a cabeça e iniciaram o conserto de forma alucinante.

Meu estudo já havia ido pra cucuia, e naquele momento só pensava na geladeira dos fundos da casa. Coloquei toda a conversa em dia com Dona Margarida, e depois de outros trinta minutos (que "voaram"), os enfeites de natal voltaram a piscar naquele quarteirão do Rio Comprido. Todos bateram palmas, gritaram de alegria, como se aquilo fosse um coisa jamais vista.

O pessoal da luz ainda acabou de podar o bougainville de dona Margarida.

Depois de tudo resolvido, a vizinhança voltou para casa, e os trabalhadores foram para os fundos da casa verde. Bebiam como bezerros, e com o sorriso mais largo que vi, dona Margarina vem da cozinha com uma espécie de bacia, cheia de sanduiches de mortadela e presunto.

Foi uma das cenas mais bonitas do bairro.

Viva a Dona Margarida!

7 comentários:

Zé Henrique disse...

FENOMENAL!!!!!
Que saudades da Barão!!
Isso me faz repensar e muito a minha intenção de vender o apê da minha mãe.
Mas essa história daria um roteiro brilhante...ganhei o dia hoje!
Essa crônica deveria ser publicada na capa de qualquer jornal.

Grande beijo, irmão.

Felipinho disse...

Estou chorando, porra. Você me fez lembrar de nossa infância, caralho. Vou ter que sair da mesa. Te amo, meu irmão.

Eduardo Goldenberg disse...

Cereal: você nos deve, agora, além da foto de sua avó na frente do Odeon (não me esqueci!), a foto da dona Margarida e da casa verde. Registra, pô!

Beijo.

Felipinho disse...

A foto da minha avó é no Palácio!

Eduardo Goldenberg disse...

Que seja, Cerê.

Manda, manda, manda!

Rodrigo Ferrari disse...

"Resolvi calçar minhas chinelas e partir para a prosa também..."
Meu irmão, que saudade!
Beijo,
Digão

Childerico Fernandes disse...

Saborosa crônica, Felipe!