sexta-feira, 3 de outubro de 2008

TIO HAMILTON

Era pelas bandas da rua do Riachuelo que andava o tio Hamilton, nasceu e morreu na Francisco Muratori nº 33, na Lapa. Amava com muita vontade aquele pedacinho da cidade, e o lugar mais distante para onde se deslocou foi Caxambu, e mesmo assim por uma vez.

Era um homem muito bonito, e segundo minha avó, que era sua irmã, era um mulherengo nato. Não podia ver uma rabo de saia que deixava seus afazeres para trás. Teve vários devaneios, mas um só amor. Chamava-se Glória, ou melhor, Glorinha, e morava num sobrado na Gomes Freire. Glorinha era linda, negra, e filha de um senhor que trabalhava no cais do porto. Ficaram juntos várias vezes, mas a moça não aguentou a ausência frequente de tio Hamilton, que gostava mesmo era da rua.

Minha vó conta que ele era tipo um bom malandro, nunca arranjava confusão, mas adorava uma birita. Vivia de biscates, fazia de tudo um pouco, e com isso conhecia a "Deus e o mundo". Consertava sapatos, foi motorista, mecânico, lanterninha do Cine Metro - na Cinelândia-, e ganhava uns trocados com o jogo. Ainda tenho algumas de suas ferramentas de sapateiro em minha posse.

Pulava de bar em bar, e às vezes deixava um fiado aqui e acolá. Quando estava muito ruim das pernas não voltava pra casa, tinha vergonha, e não queria que as crianças o vissem em tal estado. Então ficava pelo caminho, na casa de alguma mulher.

Crianças eram sua fraqueza, fazia tudo por elas. Minha mãe ainda se lembra quando ele a levava para passear na praça Paris, e depois sempre fazia questão de pagar-lhe um doce ou um refrigerante, não tinha miséria. A garotada adorava o tio Hamilton, parece que de vez enquando ele até aparecia em casa com algum moleque de rua para almoçar. Um de seus maiores desgostos foi não ter sido pai, mas a vida é assim. Dizia que era pai de toda a criançada que perambulava pela Riachuelo.

Ficou sumido por uma semana quando soube do casório de Glorinha, preocupando a família e os amigos. Quando voltou prometeu para si que iria largar a rua e montar família, mas a promessa durou uma semana. Como já falei, mulheres não lhe faltavam, mas nenhuma conseguia apagar seu amor da memória.


Tio Hamilton nos anos quarenta.

Aos 35 anos contraiu tuberculose, a peste da época. Como não se cuidava, logo piorou. Ficou em casa, de cama, até ficar bem doente. De tolo não tinha nada, e portanto sabia que não teria muitos dias pela frente. Era de praxe naqueles tempos chamar a família e os amigos para se despedir, e foi o que fez. Conversou com todos com a maior calma do mundo, e pediu para que chamassem o dono de uma birosca ali da rua, pois queria lhe pagar os contos que devia.

Minha vó até hoje diz que ele morreu com um sorriso largo na cara, pois um dia antes de embarcar para o além, Glorinha apareceu para se despedir, e pegando em suas mãos foi direta:

- Eu sempre te amei, vê se toma jeito lá em cima, e espere por mim.

E o tio Hamilton, já nas últimas, respondeu cantando Noel:

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho
Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém
Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

Minha avó chora pacas quando lembra-se disso.

Até.

5 comentários:

Betinha disse...

Parabens pelo registro, Felipe. Essa linda historia realmente nao deve ser esquecida.

Beijos.

André Luis disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

André Luis disse...

A história do seu tio é maravilhosa e daria um lindo filme sobre o bom malandro carioca.

Abraços!!

Szegeri disse...

Que lindo...

Marcelo Hollanda disse...

Muito lindo...