segunda-feira, 22 de setembro de 2008

PELADA CHEIA DE ROUPAS

A velocidade não é a mesma de tempos passados, a calmaria anda perdendo a partida contra a ligeireza.

Me lembrava dia desses que há pouco ainda jogava as peladas da minha rua, coisa de quinze anos atrás. Tinha uma turma boa de amigos aqui na redondeza, e domingo bem cedinho já estávamos fazendo as balizas com pedras. Enquanto uns arrumavam os detalhes do "campo", os outros tocavam as campainhas das casas dos amigos mais preguiçosos. Todos presentes, tirávamos os times na sorte, e a bola rolava. Se tivesse muita gente o gol era maior e com goleiro, senão era "golzinho".

Contávamos os segundos para o domingo, éramos todos uns "fominhas", e quem ficava na de fora fazia cara de poucos amigos. Definitivamente, o importante ali era se divertir. Apesar da pouca idade, comecei a jogar na rua com uns oito anos, acho que já sentíamos como era importante vivermos aqueles momentos lúdicos no nosso bairro. Não tínhamos luxo algum. Jogávamos descalços, com tênis furado, tênis com fita isolante para tapar a "janela do dedão do pé", com os tênis mais vagabundos da terra. As camisas dos atletas pareciam queijos suiços, e os calções mais chiques eram os da "Silze". Driblávamos carros estacionados, árvores, frades, e meio-fio. E as velhotas? Aturamos durante toda a infância a dona Yolete do 2º andar, que era birutinha, e ficava gritando pela janela para que acabássemos logo com a brincadeira por causa do barulho. Tinha também a dona Alda, se vacilássemos ela furava a bola sem perdão. Quando acabava a pelada ficávamos imundos na rua durante horas jogando conversa fora, ou fazendo qualquer outra atividade em conjunto, como jogar botão. Muitas ruas possuíam o mesmo cotidiano.





Vivi intensamente isso, foi uma época que marcou. E hoje? Como as coisas mudaram, como as almas se esfriaram, como o povo se individualizou. Hoje o relógio trabalha dobrado, não há tempo para nada, acabou-se o que era doce.

Jogar uma simples pelada atualmente significa gastar primeiro. A molecada exige campos fechados, chuteiras da nike de duzentos reais, camisas do Manchester de cento e cinquenta reais, e todos esses apetrechos que passam diariamente pela cabeça dessas crianças. Na hora na partida não conseguem nem se mexer.

Ninguém mais vive os momentos bonitos, ninguém mais joga descalço, ninguém mais dribla uma árvore, ninguém mais tem uma bola furada. O que se há, meu caros, é cada um pro seu canto, com seu armários cheios de roupas brilhantes, e com seus corações crescendo cada vez mais vazios.

Até.

10 comentários:

Rodrigo disse...

Porra, Felipe, belo texto.

Eu fiz isso tudo cara, joguei bola na quadra de pinche, descalço, jogeui na rua, no barro valendo caixa de tubaína. Hoje as coisas se perderam o playstation roubou as brincadeiras de rua. A mulecada não sabe de mais nada, crescerão bobos. Pois a rua de dá uma certa malícia , uma certa malandragem para se viver.

Abraço

Eduardo Goldenberg disse...

Nem tudo está perdido, querido. Eu, que também joguei pelada na rua, na vila, com bola de meia, que disputei torneios de botão com a mesa no chão, tenho esperança. Haverá sempre, num canto qualquer do país ou da cidade, alguém incapaz de perder a Vida (se é que me faço entender). Beijo.

Felipinho disse...

Pois é, Rodrigo, as coisas mudaram, estes momentos ficaram raros. Não falei nem do "videogame", aí é covardia. Abração.

Edu, ainda existe sim, principalmente no subúrbio. Esperança sempre temos que ter, e além dela temos que atuar para reacender esta chama na garotada de hoje. Digo somente que mudou muito, não vejo mais as ruas cheias, mas há esperança sim. Beijo.

Eduardo Goldenberg disse...

Claro que há esperança, meu irmão! Como "ninguém mais vive os momentos bonitos"????? E os que vivemos no sábado, malandro? No meu prédio, mano, na Haddock Lobo, a molecada joga bola no terreno dos fundos, a Domício da Gama é uma festa de pirralhos na rua... Há beleza demais ainda, garoto! E seu sobrinho?! Hein?!

Tenhamos fé, querido. A beleza há de sobreviver, sempre.

Beijo.

Felipinho disse...

Sim, Edu, sim. Não estou falando dos momentos bonitos de um adulto, mas de uma criança. Eu faço o máximo para que meu sobrinho viva isso, ainda existem ruas como antigamente, mas praticamente acabou. A verdade é essa, infelizmente. Mas também sou defensor da beleza, brigo com vontade por ela, e acho que ela terá dias melhores. Beijo.

Arthur Tirone disse...

Enquanto houver criança haverá beleza. Porque as crianças - elas sim -, vêem a beleza. Nós é que temos os olhos embaçados...

Felipinho disse...

Pode ser isso, Favela, pode ser. Beijo.

Anonymous disse...

Felipinho, parabéns ao seu blog. Sou um filho, sobrinho, neto e bisneto de militares. Como alguns sabem a sina do militar e seus familiares é a ausenência de um porto seguro. Onde ordenarem lá estará o militar e sua família. Sou natural de Natal, mas passei toda a minha vida viajando de lugar em lugar. Está é a 3ª vez que resido no Rio (estou na Tijuca há sete anos) e aqui permaneci desde que me tornei capaz de me manter. MAS FOI NA TIJUCA QUE APRENDI A AMAR O BAIRRO ONDE MORO. Depois de um bom tempo de lugar em lugar (19 anos) foi aqui que me encontrei, foi aqui que aprendi a apreciar o passeio matinal pelas ruas conhecidas e o chopp de fim de semana no bar da esquina. O mais engraçado é que vou me casar em alguns meses e minha noiva que é de Copacabana, nascida e criada na Figueiredo Magalhães, se apaixonou de tal forma pelo bairro desde que me conheceu, que mesmo sob apelos da família resolvel aqui ficar. É incrivel a paixão que este bairro inspira nas pessoas. AMO A TIJUCA!!!

Abraços!!!

André Luis.

Felipinho disse...

Grande André Luis, grande. Muito obrigado pela sua visita, e mais ainda por amar a Tijuca. Fique a vontade neste humilde espaço.

Grande abraço.

Anonymous disse...

deixo aqui algumas regras para ilustrar...

1. A BOLA
A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do irmão menor.

2. O GOL
O gol pode ser feito com o que estiver à mão: tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola e até o seu irmão menor.

3. O CAMPO
O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, rua e a calçada do outro lado e, nos grandes clássicos, o quarteirão inteiro.

4. DURAÇÃO DO JOGO
O jogo normalmente vira 5 e termina 10, pode durar até a mãe do dono da bola chamar ou escurecer. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

5. FORMAÇÃO DOS TIMES
Varia de 3 a 70 jogadores de cada lado. Ruim vai para o gol. Perneta joga na ponta, esquerda ou a direita, dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

6. O JUIZ
Não tem juiz.

7. AS INTERRUPÇÕES
No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada em 3 eventualidades:

a) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isso não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação.
b) Quando passar na rua qualquer garota gostosa.
c) Quando passarem veículos pesados. De ônibus para cima. Bicicletas e Fusquinhas podem ser chutados junto com a bola e, se entrar, é Gol.

8. AS SUBSTITUIÇÕES
São permitidas substituições nos casos de:

a) Um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer lição.

b) Jogador que arrancou o tampão do dedão do pé. Porém, nestes casos, o mesmo acaba voltando a partida após utilizar aquela aguá santa da torneira do quintal de alguém.

c) Em caso de atropelamento.

9. AS PENALIDADES
A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar o adversário dentro do bueiro.

10. A JUSTIÇA ESPORTIVA
Os casos de litígio serão resolvidos na porrada, prevalece os mais fortes e quem pegar uma pedra antes,

QUEM NÃO JOGOU, PERDEU UM DOS MELHORES MOMENTOS DA VIDA.