quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O JOGO DO BICHO

Andava com minha mãe hoje à tarde na rua do Ouvidor, ambos gozando de férias merecidas, e resolvi convidá-la para almoçar no Santos. Tarde agradável, que ficou melhor com a chegada dos camaradas Rodrigo Jesus e Digão Folha Seca.

Terminada a comilança e a hidratação feita por quantidades despreocupadas de chopp, levantei-me, dei uma batida na barriga, e sem querer percebi um apontador de bicho que estava sentado numa daquelas cadeiras de escola pública. Lembrei-me do meu falecido pai, que sempre jogava na esquina da minha rua, e bateu-me aquela nostalgia.

Resolvi então fazer uma fezinha, joguei no grupo do camelo e da vaca, sempre "cercado", como o meu velho. Por que camelo e vaca? Sei lá, veio na hora. Sei que tem gente que sonha com qualquer coisa e vê ligação com um bicho ou números só para ter motivo pra jogar, acho um barato. Fazem anotações de placas de carro de desastre, de túmulo de defunto, jogam sempre o número do talão... E depois é só conferir o resultado que fica pregado em postes ou árvores nas esquinas da cidade. Coisas da nossa cultura.


E pensar que esta "febre" carioca começou há 115 anos, no bairro boêmio de Vila Isabel. Como muitos já sabem, o inventor do simpático joguinho foi o Barão de Drummond, o mesmo que fundou o antigo zoológico lá na terra de Noel. As pessoas que compravam ingresso para ver a bicharada, ganhavam um papelzinho com a figura de um animal que ia de 1 à 25, de avestruz à vaca. No fim da tarde, algum caboclo da administração sorteava o bicho, e quem ganhava levava um prêmio em dinheiro pra casa. Três anos depois de sua criação, o jogo do bicho já seria proibido pelo prefeito da época, Furquim Werneck. Mas já era tarde, o jogo entrou rapidamente no cotidiano carioca, tornando-se de vez mais uma marca da malandragem carioca.

Até pouco tempo os bicheiros eram famosos, saíam na televisão... Lembram do Castor de Andrade? Ficou à frente da Mocidade de Padre Miguel por algum tempo, na época do reinado da escola, no início dos anos 90. Sem falar no Bangu, sua vida, colocou até o desenho de um castor preto na camisa da equipe, virou marca. Essa foto do Ado aí abaixo foi tirada bem depois que ele perdeu o pênalti na final de 85. Olha que bela camisa!



É isso, os bicheiros ainda estão por aí e o jogo também, mas com a praga desses caça-níqueis (chato pra caralho), o movimento nas bancas não é o mesmo.

As "autoridades" (não sei quais) ainda chamam o jogo do bicho de contravenção, mas acho isso uma babaquice. Canso de ver policial fazendo sua aposta, cagando para a tal contravenção. Não adianta, já está no sangue do povo, até os que deveriam trabalhar na extinção do jogo deixam isso pra lá.

Se eu ganhar na aposta de hoje, a cerveja tá paga no Leudo.

Até.

4 comentários:

Gabriel Cavalcante disse...

Eles falam que é contravenção, porém tive uma sorte um dia e ganhei uma quantia notável. Os caras são muito organizados, pagaram certinho, no dia seguinte e sem algum problema.
Proponho a nossos parlamentares e semelhantes, que venham passar um tempo no Rio para fazerem uma pós graduação em honestidade, organização e seriedade com o nosso jogo do bicho.
Aliás, hoje é sábado, dia de Federal, e eu to indo fazer um terninho de grupo agora.

Felipinho; se ganhar amanhã a cerveja na Affosnso Peña é minha!!!!

Forte abraço!!!!!!!!

Bruno Ribeiro disse...

Belo texto, malandro! Eu sou adepto do bicho também.

E obrigado pelo comentário no blog!

Até a volta!

Szegeri disse...

Meu americano mais querido, a julgar pelo resultado que você publica aí em cima, não ganhaste nada! Avestruz, porco, galo, coelho, carneiro!

Sabe o que eu acho mais bonito? Diferentemente dessas mentiras oficiais tipo "mega sena" e outras bostas do mesmo naipe, ninguém joga no bicho pra ficar rico! Nem pra parar de trabalhar, a não ser por umas duas semaninhas! Joga-se um pouquinho, ganha-se muitas vezes, normalmente também pouco, Papai joga todo dia, ganha toda semana, recupera quase sempre o dinheirinho empatado!

Conheço tantas histórias... Um amigo que há mitos anos mora com papai do céu mudou de casa, não tinha dinheiro pra pagar a mudança. Jogou na placa do camihão e ganhou EXATAMENTE o dinheiro do frete! Tive também uma cozinheira (no meu buteco lá na Capela do Socorro) que jogou o número marcado na porta de ferro da espelunca, ganhou e nunca mais apareceu pra trabalhar!

Como diria o Poeta, "coisa nossa, muito nossa..."

Szegeri disse...

P.S., Felipinho: a parte triste é que aqui em SP, tem um monte de "chalé" que usa, pra fazer as apostas, dessas máquinha medonhas iguais às das lotéricas e o resultado também é impresso igualzinho aos das loterias oficiais, ou já sai direto na Internet. É a morte da arte do anotador e do resultado no poste.
E agora tem ainda essa palhaçada de "PT Paulista", diferente do resultado da "Nacional". Tristes tempos...